Quando eu decidi que queria morar na Suíça e estudar Design, foi a primeira vez que precisei pensar e entender de verdade como funciona o sistema educacional suíço. Se você não tá familiarizada(o) com ele, aqui vai um resumo rápido: é muito, muito, muito (eu já disse muito?), MUITO confuso!
Talvez, se você estudou aqui ou da Alemanha (onde o sistema é parecido), você vai achar que eu tô exagerando. Mas acredite: sendo uma brasileira que não fez o ensino médio aqui mas queria começar um bacharelado, eu não fazia ideia nem por onde começar. Porém, depois de MUITA pesquisa, conversas com diferentes educadores e dias de informação nas universidades, finalmente entendi como e por onde seguir.
Estou escrevendo este artigo para ajudar quem quer que possa estar na mesma situação que eu. Eu tive muita dificuldade porque existem poucos relatos (menos ainda se você não fala alemão) sobre esse processo, especialmente sendo uma pessoa não-suíça. Então espero poder ajudar compartilhando minha experiência e o conhecimento que adquiri durante esses meses de busca.
Vou tentar explicar os passos da forma mais simples possível:
Se você é estrangeira(o) sem uma Matura suíça (basicamente qualquer tipo de ensino médio daqui) e quer estudar História da Arte (antiga, moderna, contemporânea, história da arquitetura etc.), precisará se candidatar a uma Universidade (Universität), que é mais teórica e tradicional. Porém, se você quer estudar algo na área de Design como eu, precisará se candidatar a uma Universidade de Ciências Aplicadas (University of Applied Sciences).
- A principal diferença é: as Universitäten focam em formação acadêmica e teórica, pesquisa e preparação para carreiras científicas ou doutorado (PhD). Já as Universities of Applied Sciences (UAS) focam em formação prática, voltada ao mercado, com forte conexão com a indústria e projetos aplicados.
No Brasil, o sistema não tem exatamente um equivalente direto às UAS suíças. Elas ficam entre uma universidade tradicional e uma formação técnica: são instituições de ensino superior, mas com foco muito forte em prática, projetos aplicados e conexão com o mercado.
Pra se candidatar a uma UAS na área de artes, você precisa de um ano de experiência profissional na área que deseja estudar ou de um curso de Propädeutikum com duração mínima de um ano.
Esse curso (que vou chamar de Propi daqui em diante) é basicamente um ano de treinamento em diferentes áreas de arte. Você aprende um pouco de tudo: fotografia, desenho, tipografia, conceitos de design etc. É a forma que eles usam para garantir que você não entre no bacharelado completamente “cru”.
Mesmo não sendo um curso com diploma ou grau acadêmico, ainda é preciso se candidatar e passar por um processo de admissão, no qual precisa comprovar que já possui algum conhecimento e experiência em arte.
Existem alguns Propis na Suíça, então você precisará pesquisar qual combina melhor com você. Normalmente, é melhor escolher um próximo da sua cidade/cantão, porque os cursos podem ser bem caros, mas geralmente oferecem descontos para residentes e acordos com cantões vizinhos.
Atualmente eu estou passando pelo processo de candidatura para o Propi da ZHdK (Zürcher Hochschule der Künste) e da SfG BB (Schule für Gestaltung Bern und Biel). Infelizmente, fui recusada na primeira janela de inscrição da SfG BB, então esta será a minha segunda tentativa na mesma escola e a primeira na ZHdK. No começo eu só queria ser aceita em qualquer Propi, mas agora eu percebi que é importante saber se realmente me identifico com a escola e com o que ela ensina durante esse ano de preparação. A questão (que foi o que aconteceu na minha primeira tentativa) é que às vezes você pode ter mais interesse em uma area específica (arte abstrata, design gráfico, arte digital, fotografia etc) mesmo antes de entrar no curso, e por isso é bom alinhar suas expectativas e interesses com os da escola.
Eu fiz o trabalho para a SfG BB e vou explicar um pouco aqui como funciona e como foi para mim.
Como parte do processo de admissão para o Propi da SfG BB, precisei fazer um trabalho criativo baseado em um tema específico. Pra candidatura 2026/27, o tema é “Cabelo”.
A ideia não é simplesmente produzir uma obra final, mas demonstrar como você pensa, pesquisa e desenvolve ideias como pessoa criativa. A escola pede que você explore o tema de diferentes perspectivas: visual, material e conceitual. “Cabelo” é apresentado como um tema aberto, que pode ir desde situações do cotidiano (como cabelo no ralo) até significados simbólicos ou culturais ligados à identidade, estética e até política.
O trabalho é dividido em várias partes;
Primeiro, você escreve uma breve carta de motivação. Depois, fotografa cabelos em um contexto de sua escolha. Em seguida, vem uma fase de pesquisa, na qual você investiga cabelos e estruturas semelhantes por meio de observações e experimentos com diferentes mídias, como desenho, fotografia, vídeo, pintura ou instalação. Esse processo deve ser documentado em um sketchbook.
Por fim, com base nessa pesquisa, você desenvolve um projeto artístico principal que expande sua exploração do tema. O objetivo é demonstrar curiosidade, experimentação, persistência e uma abordagem criativa pessoal (não apenas perfeição técnica).
Pra ser sincera, essa parte do processo foi a mais frustrante para mim. O tema “Cabelo” e a estrutura do trabalho ficaram muito distantes do tipo de projeto que eu normalmente crio. Minha prática artística é mais ligada à ilustração e design gráfico, enquanto esse exercício puxa fortemente para processos conceituais e experimentais. Em vez de sentir que poderia mostrar meus pontos fortes, a verdade é que senti que estava tentando me encaixar em um formato que não combinava com minha forma de trabalhar ou os meus interesses. Eu entendo que o objetivo é avaliar curiosidade, experimentação e processo, mas às vezes parecia estranho ser avaliada em algo que tem pouco a ver com o tipo de trabalho criativo que realmente quero seguir. Por isso, agora acho muito importante pesquisar a escola para ver se ela realmente combina com você.
Depois de fazer o projeto cabeludo deles, entreguei o trabalho na SfG BB e aguardei o resultado por e-mail. Se você passar, haverá uma entrevista e então o resultado final. Todo esse processo de candidatura acontece no final e no início do ano (geralmente de dezembro até o fim da primavera), e todos os Propis começam em agosto/setembro. Isso significa que você precisa se preparar cerca de um ano antes de iniciar os estudos. É muito importante prestar atenção nas datas, pois existem diferentes janelas de inscrição ao longo do ano, mas apenas uma data de início.
Aqui estão alguns pontos gerais importantes sobre os cursos de Propädeutikum:
É necessário ter pelo menos nível B2 em alemão (não tenho certeza se é igual nos cursos em francês, mas imagino que sim). Nem sempre é obrigatório apresentar certificado, mas podem solicitar. É melhor já ter o nível antes de se candidatar.
O preço do Propädeutikum pode variar bastante dependendo do cantão onde você mora. Como muitas escolas são financiadas pelos cantões, estudantes locais ou de regiões com acordos educacionais pagam taxas reduzidas. Por exemplo, na região onde eu moro, fazer o Propi em Basel, pode chegar a cerca de 20.000 CHF. Enquanto em Zürich, o custo cai pra cerca de 3.300 CHF por semestre com a taxa subsidiada. Então é bom procurar opções com desconto cantonal ou garantir que você tem uma reserva de dinheiro.
Geralmente é um curso em período integral. Algumas pessoas trabalham durante os estudos, mas normalmente as escolas não recomendam. A ZHdK é a única que encontrei que tem opção parcial: em vez de um ano, pode ser feito em um ano e meio, com aulas apenas sexta e sábado. Melhor se planejar de acordo com a sua disponibilidade.
Não é a única forma de entrar em uma UAS. Se você tem 25 anos ou mais e experiência profissional na área, pode aplicar “sur dossier”. É um processo diferente, no qual não é necessário ter feito o Propi. Eu não me qualifico para essa opção, mas, se você se encaixa, também é uma alternativa boa e mais rápida.
No final do dia, estou muito animada pro futuro e pra todas as possibilidades que o Propädeutikum pode abrir para mim! Quero olhar para este momento em que estou escrevendo esse texto e perceber o quanto cresci, seja em habilidades, visão, artisticamente, em expectativas e sonhos. Não é um caminho fácil estudar Design na Suíça, e eu achei (as vezes ainda tenho esses lapsos) que só não ia acontecer pra mim, por N motivos. Mas a real é que já está me ensinando muito e me ajudando a me tornar uma versão melhor de mim mesma; não apenas artisticamente, mas em muitos outros aspectos :)
Se você também está pensando estudar Design e se candidatar a um Propi na Suíça, espero que compartilhar minha experiência te ajude a entender melhor o processo. Se for só por curiosidade, fico feliz em contar a minha história também. E talvez, daqui a um ano, eu volte aqui com um novo capítulo dessa jornada! Obrigada por ler até aqui e bis bald! Tchauzinho 🧚🏼♀️