28 de abril. Metade do dia já tinha passado e eu tinha checado todos os meus e-mails pelo menos umas 7 vezes desde que acordei. Essa tem sido minha rotina desde o dia seguinte à minha entrevista. Eu estava assistindo algum reality show dramático quando recebi uma notificação no celular: A decisão do seu Propädeutikumkurs está disponível. Graças a Deus eu tava sentada. Alguns cliques depois e tava lá:
Oficialmente aceita na Zhdk!!!
Por muito tempo, continuar meus estudos aqui parecia quase impossível. Como se a vida tivesse me colocado nesse espaço estranho de entre mundos, onde eu sabia exatamente quem eu queria me tornar, mas simplesmente não conseguia encontrar o caminho pra essa versão de mim mesma. E quando você fica nesse lugar por tempo demais, começa a questionar tudo: Seu talento. Seus objetivos. Seu valor. Eu comecei a me perguntar se talvez esse sonho só estivesse vivo ainda porque eu não tinha aceitado completamente que ele poderia nunca acontecer. E, sinceramente, depois de um ano e meio tentando voltar pros meus estudos nesse país, é bom demais finalmente dar um passo tão grande assim em direção ao meu diploma!!
Porém, isso também me fez refletir sobre essas “medalhas” que a gente conquista na vida pra apresentar pros outros, como prova do que somos ou fazemos. Toda essa corrida por títulos, instituições e validações que mostramos como se fossem uma confirmação de que merecemos ser levados a sério. Como se paixão, disciplina e dedicação precisassem de uma permissão “oficial” pra se tornarem reais.
A verdade é que já faz bastante tempo que eu estudo e faço arte, mas eu sempre ficava nervosa ou meio desconfortável de me apresentar como estudante de arte, só porque eu não fazia parte de uma educação formal.
Mas desde que fui aceita, percebi que agora não tenho problema nenhum em dizer isso pras pessoas. Nada na minha rotina mudou, eu continuo consumindo e criando a mesma quantidade de arte que antes, mas só o fato de agora ter alguma “autoridade” também me reconhecendo, me deu toda a confiança que tava faltando. E isso foi, ao mesmo tempo, incrível e revelador.
Durante minha entrevista na ZHdK, eu precisei falar sobre a tarefa de candidatura e meu portfólio. E enquanto explicava todo o meu processo e minhas ideias, alguma coisa simplesmente virou uma chave dentro de mim. Eu pensei: hmmm, na verdade, eu não deveria estar tão nervosa assim, eu mereço estar aqui.
E não foi de um jeito arrogante, tipo “sim, eu sou incrível, vocês claramente devem me aceitar", mas sim no sentido de que eu sou artista. Eu já crio arte sem ninguém precisar me pedir. Eu crio porque preciso. Porque existe alguma coisa dentro de mim que constantemente me impulsiona a observar, interpretar, construir e me expressar. Arte não é algo que eu escolhi seguir porque alguém disse que era prático ou aceitável. Sinceramente, quero estudar nessa universidade pra me desenvolver, aprender com pessoas diferentes, descobrir novos pontos de vista e novas técnicas; Mas mesmo se tivessem me negado, eu ainda faria arte. Continuaria estudando e criando meu próprio caminho, porque isso simplesmente é quem eu sou e o que eu quero fazer.
Isso também me fez pensar em todos os artistas que conheci, e em como eles fazem seus projetos porque precisam fazer. Porque é assim que eles são moldados. Não porque alguém mandou, ou porque têm um pedaço de papel dizendo “agora você é um artista, isso é o que você deve fazer”, mas simplesmente porque não conseguem se imaginar vivendo de outra forma.
E acho que essa foi a maior lição de toda essa jornada: validação pode abrir portas, mas não cria a minha identidade.
Quem eu sou existe muito antes do certificado, da carta de aceitação, do diploma ou do título. Especialmente quando estamos falando de algo tão relativo e pessoal quanto arte.
Enfim, falei a beça, mas o objetivo desse post é celebrar minha entrada na faculdade de arte, e mais do que isso, celebrar todas as coisas incríveis que aprendi no caminho até aqui. Tô muito animada e mal posso esperar pelos próximos capítulos!! Obrigada por ler até aqui e bis bald! Tchauzinho 🧚🏼♀️