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Projeto de aplicação pra Universidade de Applied Science

Estou escrevendo esse texto logo após entregar a minha tarefa de admissão do Propädeutikum. Quero registrar como foi esse processo, os sentimentos e reflexões que gerou em mim, e espero que lá na frente, possa olhar com carinho pra esse momento, perceber o quanto as coisas terão mudado em 1 ano.

Quando abri o pdf e li o enunciado da tarefa de casa do Propi da ZHDk, a primeira coisa que apareceu foi: Bubble. Pensei: ótimo, tema fácil. Eu vivo numa bolha. Todo mundo vive numa bolha. Quantas horas pode levar isso?

O PDF dizia: aproximadamente 25 horas.

Spoiler: gastei as primeiras 3h só decidindo sobre qual bolha falar.


Antes de começar a imaginar o que fazer nas tarefas, eu precisei me questionar: o que é a minha bolha?

Me mudei oficialmente pra Suíça há menos de um ano. Não foi a minha primeira experiência morando fora do meu país, mas nem por isso deixou de ser um choque. Vim do Brasil com uma mala, havaianas e uma convicção inabalável de que ia me adaptar rápido.

O que eu não sabia, é que mesmo quando você se considera uma pessoa “internacionalizada”, nada te prepara pra quando você está no supermercado às 18h57 e o Coop fecha às 19h e você ainda não entendeu se o a batata palha fica no mesmo corredor dos macarrões e qual é a diferença entre os 37 tipos de pães diferentes na padaria, apesar de parecer importar muito para todo mundo menos pra você.

Então quando o enunciado pediu que eu documentasse minha bolha - meu ambiente, meu entorno, o mundo em que eu vivo - fiquei olhando pra tela por um tempo considerável e pensando: qual dos dois mundos eu documento? O Brasil que carrego no meu coração e pensamentos diariamente ou a Suíça onde eu de fato acordo todo dia?

Spoiler número dois: pra que escolher um, quando a minha existência aqui é a prova dessa junção de mundos?


Tarefa 1 - Documentação da minha bolha.

Minha primeira ideia foi não ilustrar.

Fique pensando em todas as técnicas diferentes que eu poderia usar, mas a verdade, é que se tem uma coisa que a minha primeira tentativa de admissão me ensinou, é que esse processo não é o melhor lugar pra inventar moda e decidir aprender algo do zero. Então decidi criar dentro das técnicas que eu me sinto confortável.

Comecei pela ilustração! fiz uma mesa de bar com litrão e copo americano, uma rede, um orelhão, um filtro de barro com flores, uma palmeira com havaianas. Gostei muito do resultado, sempre me sinto mais a vontade ilustrando digitalmente. Ainda mais, quando são ilustrações de carater pessoal.

Porém depois de criar todos os 5 objetos, reli o enunciado e percebi que o PDF pedia documentação do meu ambiente real. Não da minha saudade. Por mais que eu sinta a falta desses objetos, eles não existem na minha nova bolha.

Então mudei o projeto, e decidi tirar fotos do meu entorno atual.

beans between cheeses

não ironicamente, as vezes eu me sinto tão deslocada quanto esse feijão

havaianas in Switzerland

não importa se ta nevando, nem que seja dentro de casa, estarei de havaianas no pé

mix between brazilian and swiss objects

A Impala é muito queen, eu acredito fielmente na superioridade dela

personal photos

cervejinha no Baixo Bota ou a caminho de uma montanha no trem da SBB, estar com amigos é sempre bom

german studies

Tenho certeza que já assisti a todos os vídeos do easy german, conheço mais a voz deles que a minha própria

E ainda bem, descobri que a câmera captura diversos detalhes que eu não tinha notado conscientemente. As havaianas pretas na sacada com os prédios amarelos de Biel ao fundo; um objeto tão brasileiro que parece nonsense no frio suíço. O feijão preto da Caçarola (obrigada amigos tugas) que eu coloquei estrategicamente no meio dos queijos Le Gruyère no Coop; porque se ele vai existir no mercado suíço, que pelo menos ocupe esse espaço com dignidade, e não sozinho, espremido na prateleira de comidas estrangeiras. Os esmaltes da Anita e Impala do lado do protetor solar Daylong SPF 50+. Dois universos de cuidado com a pele que têm objetivos completamente diferentes. O mural de fotos na parede com amigos de dois países em ambientes que não poderiam ser mais diferentes. Mostrando que amizade, felicidade e bons momentos podem ser encontrados de diversas formas e em qualquer lugar. E por fim, o caderno de alemão aberto com conjugações em azul e vermelho, o livro Motiv A2 do lado, o YouTube com Easy German na tela grande que basicamente me acompanham a mais de 3 anos nessa jornada de aprendizado.

Essa última foto foi a que mais me pegou de surpresa. Eu estudo alemão quase todo dia e nunca tinha pensado nisso como parte da minha bolha. Mas é. É talvez a parte mais honesta dela; a tentativa diária e levemente exaustiva de aprender a existir numa língua que ainda não é minha. Uma grande parte da minha busca pra me adaptar a minha nova bolha.


Tarefa 3 - a fotoserie: e se eu colocasse o Brasil dentro da Suíça? tipo, literalmente?

rede
bar table
orelhão
flip-lfops and ball by the lake
brazilian water filter

Aqui, juntei as duas coisas: fotografei lugares reais de Biel e coloquei por cima, as ilustrações brasileiras que tinha feito no Procreate.

A mesa de bar com litrão apareceu do lado do Café Bielstube, com suas cadeiras cinzas de madeira e a lousa que dizia “Ouvert / Geöffnet”; aberto em francês e alemão, porque Biel é assim, sempre nas duas línguas ao mesmo tempo, e eu achei isso não podia ser mais poético. A rede azul foi parar entre duas árvores num parque no inverno. O filtro de barro com flores hibisco complementou a minha bancada de cozinha, ao lado da Nespresso e da air fryer.

Não é uma nostalgia. É o retrato fiel de como eu realmente funciono e vejo o mundo; com um pé em cada lugar, sem pedir licença pra nenhum dos dois, ocupando o espaço como e onde der.


Tarefa 2 - a imagem livre: eu rasguei um monte de coisa e foi terapêutico pra dedéu!!

A tarefa livre era para ser uma imagem sobre Bubble, formato A3, técnica livre. Eu escolhi falar sobre transformação e identidade: quem você tá se tornando como a sua bolha te influencia.

Fiz uma seleção de fotos e as imprimi. No Brasil, priorizei as imagens com símbolos e cores que pra mim, são 100% brasileiros. Ipanema com o Morro Dois Irmãos ao fundo, uma barraca de drinks com bregas escritas, a igrejinha colonial, o açaí na mão. As fotos de Biel foram mais fáceis do que imaginei. Mão na máquina de bilhete da SBB com diferentes destinos na tela, o trilho coberto de neve, as casas com galhos secos, as montanhas e céus cinzas…

Rasguei tudo.

Montei uma silhueta humana com esses fragmentos. Brasil do lado esquerdo. Biel do lado direito. No meio, uma linha de lápis quase invisível separando os dois; ou tentando. Porque os pedaços rasgados não respeitam fronteiras muito bem, e algumas fotos brasileiras escorregaram pro lado suíço e vice-versa.

As lacunas entre os fragmentos, onde o papel branco aparece, eram parte do trabalho. São os espaços onde eu ainda não sei o que colocar. Onde ainda estou descobrindo. Crescendo.

Usei tipografia para criar elementos comuns de cada mundo; em português do lado direito: saudade, solar, flores, dengo. Em alemão do lado esquerdo: Heimat, Herz, Grüezi. Adicionei também palavras em francês: Merci, Bonjour, Travail… Palavras que compõem o meu dia a dia, e que de certa forma, se destacam pra mim, em idiomas que ainda estou aprendendo a pronunciar e viver direito.

Na bola de futebol, coloquei pequenos erros em algumas palavras. Quis representar que ainda estou aprendendo, ainda cometo um erro aqui e ali, mas que isso não me impede de continuar e formar o todo. Não é preciso saber tudo sobre uma bolha pra estar dentro dela.

collage

O que aprendi?

Esse projeto me ensinou que documentar é diferente de interpretar. Que a câmera às vezes representa mais honestamente do que o que posso criar no Procreate. Que rasgar uma foto impressa é surpreendentemente satisfatório. E que papeis de impressão específicos são caros, mas valem apena.

Aprendi também que a minha bolha agora não é o Brasil. Não é a Suíça. É esse espaço meio estranho, meio rico, totalmente inconveniente que existe entre os dois; onde o feijão preto divide prateleira com o Gruyère, onde eu estudo alemão enquanto ouço funk, e onde eu ainda fico 30 segundos parada na frente do lixo tentando lembrar se esse plástico vai no Gelb Sack ou não.

Ainda estou aprendendo a me encontrar aqui. Essas tarefas me desafiaram mais conceitualmente do que tecnicamente, levantando questões que ainda não fazem completo sentido pra mim. Mas ainda bem que tenho a arte pra me ajudar a entender. Uma vez eu li em algum lugar que “não se cria arte por querer, mas por necessidade.” E a cada novo projeto, isso se confirma cada vez mais no meu coração :)

Espero voltar com boas notícias, e que os avaliadores gostem tanto do projeto quanto eu! Obrigada por ler até aqui e bis bald! Tchauzinho 🧚🏼‍♀️